A música do coração

O coração é o motor da vida e o mais musical dos órgãos do corpo humano. Tem seu ritmo próprio, batendo a uma incrível cadência de 100 mil vezes por dia, um moto perpétuo. Seu ritmo é o próprio compasso da vida, ora mais rápido para acompanhar o presto do dia a dia ou mesmo o allegro assai vivace da emoção de um beijo. Mas o coração também sabe entoar um adaggio quando é hora do acalanto ou um largo maestoso quando chega o sono ao fim do dia.

É curioso pensar que o coração começa a bater com poucas semanas de fecundação, ainda no útero materno, e nos acompanha até os últimos arpejos da vida, indo muitas vezes até além do nosso fim, pois pode ser transplantado levando a música da vida a outra pessoa. O coração é um órgão tão mágico que mesmo doente, continua a tocar a sua melodia, muitas vezes sem nos dar notícia que a orquestra de seus milhões de células está sem fôlego. Às vezes revela suas aflições por meio de sopros, como flautas e oboés. Outras vezes seus sintomas e suas dores se confundem com a angústia, com os suspiros de emoção, revelando a razão de utilizarmos o símbolo do coração para representar a vida, o amor e os sentimentos. Quantas lindas palavras surgiram a partir dele: cor, coragem, acordar, recordar, cordialidade e até acordes, a combinação de notas que fazem a harmonia de todas as músicas que existem.

Um órgão tão melódico não poderia ser indiferente aos efeitos da boa música. Uma recente publicação revisou os achados científicos sobre os efeitos da música harmônica sobre o coração e a circulação, revelando benefícios sobre a regulação autonômica cardiovascular. A estimulação com música agradável reduz a atividade simpática renal e a pressão arterial através da via auditiva, o núcleo supraquiasmático do hipotálamo e os neurônios histaminérgicos. Além disso, o prazer de ouvir música estimula a ação da dopamina no sistema mesolímbico de recompensa, estimulando o núcleo accumbens, região a qual é atribuída, entre outras funções, a resposta eufórica aos psicoestimulantes.

A música nos acompanha por toda a vida. Se é com alegria que celebramos as primeiras batidas de um coração anunciando a chegada de uma nova vida, é com tristeza e comoção que recebemos a notícia de que após trilhões de pulsações, o coração encerra a sua melodia. Mas há quem, como eu, que acredita que a música do coração nunca se cala, pois quando isso acontece perde uma só letra e se transforma em oração.

Por Dr. Marcus Vinicius Bolívar Malachias

Marcus Vinícius Bolívar Malachias é cardiologista clínico, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e candidato à Presidência da Sociedade Brasileira de Cardiologia na eleição de 2014.

www.marcus2014.com.br

 

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