As intermitências da morte

José Saramago

Companhia das Letras

 

“No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou uma perturbação enorme…” Assim começa um dos mais belos livros de José Saramago, que, como sempre, surpreende. Dessa vez tratando, sempre com sua habilidade irônica, um tema universal: a morte. A morte é personagem central e no início do livro nega a se apresentar; desde 1º de janeiro de um determinado ano, ninguém mais morre em um país imaginário. Os primeiros dias, vistos como uma benção,  rapidamente vão revelando os problemas com essa espécie de “greve da morte”. A nação inicialmente exultou, considerando-se escolhida para a imortalidade. Mas logo a “greve da morte” se revela um problema: “ao princípio, como era natural, houve invejas, houve conspirações, deu-se um ou outro caso de tentativa de espionagem científica para descobrir como o havíamos conseguido, mas, à vista dos problemas que desde então nos caíram, cremos que o sentimento da generalidade da população desses países poderá se traduzir por estas palavras: Do que nos livrarmos”. A morte resolve então voltar às atividades, mas como uma diferença: passa a avisar os “escolhidos” com sete dias de antecedência. Não é isso que sempre achamos o ideal? Ser avisado com certa antecedência para colocarmos as coisas terrestres em dia? Mas essa situação também se mostra bastante perturbadora – ninguém mais saía de casa esperando a chegada ou não do aviso. É então que se dá o encontro da nossa personagem principal com um violoncelista e de certa forma há uma “humanização” da morte. “As intermitências da morte” é, para mim, um dos melhores livros desse ganhador do Nobel de Literatura. Uma frase do livro me marcou e vez por outra penso nele: “Se não voltarmos a morrer não temos futuro”.

 

Por Dra. Ana Mallet

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