Historia da SOCERJ

Eduardo Nagib Gaui

Presidente da SOCERJ Biênio 2004/2006

“Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”
Velho provérbio árabe

“A história é a ciência dos homens no tempo”
Lucien Febvre

Aos 6 de agosto do ano de 1955, 41 médicos, por ocasião de uma reunião científica da Seção Regional do Rio de Janeiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, decidiram fundar nesta cidade, a Sociedade de Cardiologia do Distrito Federal, na época capital do Estado e que abrigava a Capital Federal. A ideia tomou impulso imediato, o que comprova o fato de que naquele mesmo mês, no dia 29, um grupo bem mais numeroso, de 140 médicos, assinou a Ata da reunião que aprovou o primeiro estatuto de nossa Sociedade.

Aos 08 de outubro de 1960, após a transferência da capital do país para a recém-construída cidade de Brasília, a Sociedade passou a ser designada por Sociedade de Cardiologia do Estado da Guanabara. Nova alteração ocorreu em 24 de junho de 1976, quando houve a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, decidindo-se pela união com a Sociedade Fluminense de Cardiologia, e determinando a mudança do nome para Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro, conhecida como SOCERJ.
Alguns anos se passaram desde as primeiras reuniões que eram realizadas na Policlínica Geral do Rio de Janeiro e, posteriormente, na Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, até que a primeira sede própria foi adquirida à Rua Alcindo Guanabara, 24 sala 1601. A SOCERJ hoje tem sede própria num dos mais valorizados endereços da cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo, sede de diversas grandes empresas.

Em 1983, foi realizado o I Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro e, a partir de 1985, este passou a ter uma periodicidade anual.
Em 1988 foi editado o primeiro número da REVISTA DA SOCERJ, publicação oficial, instrumento de alta qualificação para a divulgação da produção científica da Cardiologia do Estado e do País.

Cinquenta anos se passaram, e uma sociedade fundada por 41 colegas pioneiros, hoje congrega o número expressivo de 2062 sócios, 13 Departamentos e 6 Seções Regionais; um Congresso anual que reúne mais de 2000 participantes, e um segundo Congresso, também anual, na cidade de Búzios, que está próximo de reunir 1000 participantes, além de promover atividades científicas ao longo do ano nas diversas cidades do Estado.
A contribuição que a Cardiologia do Rio de Janeiro tem dado para a edificação do prestígio de que já há muito goza a cardiologia brasileira a nível internacional, se soma a contribuição que nossos sócios têm, ao longo do tempo, dado à Sociedade Brasileira de Cardiologia, com participação destacada em funções administrativas e colaboração científica nas mais diversas atividades.

A história da Cardiologia do Rio de Janeiro se confunde com a história da SOCERJ. Todos os grandes nomes e representantes dos grandes serviços de cardiologia de nosso Estado participaram ativamente, desde a fundação, das atividades associativas e colaboraram de forma protagonista na pavimentação do caminho que temos percorrido.

Esta história não pode ser esquecida, pelo contrário, merece ser resgatada. Como pregou Marc Bloch, “a ignorância do passado não se limita a prejudicar o conhecimento do presente, comprometendo, no presente, a própria ação”.

Francisco Manes Albanesi Filho

Presidente da SOCERJ Biênio 1992/1994

A primeira representação do coração data de 40 séculos antes de Cristo (a.C.) e foi realizada pelos Sumérios (povo asiático) que se utilizavam da escrita cuneiforme em pedras, sendo o Mamute de El Pindal, encontrado em uma caverna da Espanha, a sua principal representação.

No século XXVI a.C., Imhotep (médico elevado pelos egípcios à categoria de Deus da Medicina) faz menção ao coração e aos vasos que distribuíam o sangue por todo o corpo, descrevendo em torno de setenta vasos.

No século XII a.C., Nen Chin (China) refere a movimentação do sangue dentro dos vasos, porém somente no século V a.C., Platão (417-347 a.C.) descreve o coração como órgão central, com o sangue em constante movimento, participando da distribuição de calor por todo o corpo. Nesta mesma época, Hipócrates (455-255 a.C.), na Grécia, menciona que o coração era composto por cavidades, separadas por valvas e havia diferença de coloração entre o sangue contido nas cavidades, sendo mais escuro (roxo) na direita e mais rutilante (vermelho vivo) na esquerda.

Foi Aristóteles (384-322 a.C.) quem denominou o principal vaso que emerge do coração, a aorta, além de ter descrito que o coração é o último órgão a morrer, quando cessam os seus batimentos.

No século III a.C., Herófilo (de Alexandria) nomeia a artéria pulmonar e identifica as fases do ciclo cardíaco (sístole e diástole), passando a estudar o pulso arterial, fixando suas características quanto à freqüência, ritmo, amplitude e força. Nesta mesma época, Erasístrato identifica as valvas pulmonar e aórtica, rompe com os princípios de Hipócrates, afirmando que nos animais vivos as artérias estão cheias de sangue e não de ar, além de ter feito referência à comunicação entre as artérias e as veias.

No século II, Galeno (200-130 A.D.), em Roma, refere que o sangue passava do coração direito para o esquerdo, parte por meio dos poros invisíveis existentes nos septos interatrial e interventricular.

Grande salto irá ocorrer até o século XII quando, no Cairo, Ibn Naisis (1210-1280) dá início a uma linha de estudos que negava a presença dos poros septais intracardíacos e esboça a possibilidade da existência da circulação pulmonar. Esta linha se continua na escola de Pádua, com os trabalhos de Miguel Serventus (1511-1553), Matteo Realdo Colombo (1616-1659), Andrea Cesalpini (1519- 1603) e Andrea Vesalius, quando as conclusões destes fatos passaram a difundir: que o sangue das veias era transmitido às artérias pelos batimentos do coração; que o sangue arterial é forçado por meio de onda de pulso a avançar de modo regular e contínuo, e que as veias devolvem o sangue ao coração para iniciar um novo ciclo cardíaco.

No século XVI, William Harvey (1578-1657), médico inglês formado em Cambridge, que havia feito seus estudos em Pádua, retorna a Londres e descreve a pequena circulação.

Finalmente, Marcello Malpighi (1628-1694) descreve os capilares, estruturas microscópicas que une as artérias às veias.

Várias incorporações científicas são feitas ao coração até que, em 1733, o clérigo Stephen Hales, através de tubo de vidro colocado em artéria do pescoço de um eqüino, consegue medir a pressão intra-arterial. Em 1896, Scipione Riva-Rocci mede de modo não-cruento a pressão arterial, por meio do tensiômetro, que posteriormente viria a se transformar junto do estetoscópio, em um dos mais utilizados equipamentos da medicina.

Em 1905, Kohler usando os princípios de Rõntegen referente ao Raio X, realiza a primeira telerradiografia do tórax e, na mesma época, Wilhlem Einthowen, em 1903, (javanês-holandês) inicia o emprego do eletrocardiograma, registrando os potenciais elétricos do coração.

No século XX, grande evolução do conhecimento é incorporada às ciências biológica e médica, passando o coração a ser alvo de atenções, tanto do ponto de vista do diagnóstico de suas alterações, quanto ao tratamento e às medidas preventivas para evitar o seu acometimento.

É nesse contexto que surge, após o término da Primeira Grande Guerra (1918) e o período que antecede a Segunda (1930-1939), grandes mudanças, que se passam no mundo e em nosso país. Porém, após o termino da Segunda Grande Guerra (1945), a velocidade da produção do saber passou a ser exponencial.

Surge a Cardiologia como especialidade e as Sociedades Médicas voltadas para a sua difusão; no Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia, em 1943 e a Sociedade Mundial de Cardiologia, em 1950. No nosso país surgem Sociedades em alguns Estados e, em 06 de agosto de 1955, é fundada a Sociedade de Cardiologia do Distrito Federal, antecessora da atual Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de janeiro.

(…)

Creio que essa conversa que iremos travar sobre a cardiologia do Estado do Rio de Janeiro irá interessar a todos os que têm a virtude da curiosidade, para conhecerem o panorama de como nasceu e cresceu um grupo de médicos que tem, no Coração, o seu ideal de vida.

Agradecemos a todos os membros da SOCERJ que colaboraram com as suas memórias.

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A evolução da logomarca da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro. De cima para baixo: a logomarca de 1955, a de 1994 e a atual.

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Cartaz do Io Congresso de Cardiologia da SOCERJ

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