Primeiras Estórias

Primeiras Estórias

João Guimarães Rosa

Rio de Janeiro; Nova Fronteira

 

Ler Guimarães Rosa sempre foi um desejo. Comecei por “Primeiras Estórias”, como uma preparação para o clássico “Grade sertão: veredas”. Não me arrependi. O livro é maravilhoso. São 21 contos em que a língua portuguesa é explorada em sua oralidade e enriquecida com neologismos.

Alguns contos me tocaram especialmente, além do clássico “As margens da alegria”, no qual transborda o afeto entre o menino e sua mãe.

“Famigerado” gira em torno dessa palavra. Um temido jagunço é chamado de famigerado por um rapaz que trabalha para o governo e vai ao farmacêutico, pessoa letrada do lugar, esclarecer o que significa a palavra: “─ Vosmecê agora que faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: famisgerado…faz-me-gerado…falmisgeraldo…famílias-gerado?”

Uma leitura mais desatenta (como a minha inicialmente) indicaria que o farmacêutico mentia ao dizer que famigerado se referia àquele que tem fama, que é importante, que merece respeito. A maioria de nós usa o termo como “maldito, desgraçado”. E talvez essa tenha sido a intenção do rapaz. Ao questionamento do jagunço sobre ter havido uma ofensa ou não, o farmacêutico também deixa espaços para dúvida: “─ Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria um hora dessas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que eu pudesse!…”

Em “Nada e a nossa condição”, o personagem principal, Tio Man´Antônio, um dos loucos iluminados de Guimarães Rosa, depois de viúvo, resolve doar quase tudo que tem àqueles que trabalham com ele. A partir do enterro da esposa inicia um movimento de desapego em que, ao se esvaziar de suas posses e abastecer seus próximos, gera as mais diversas atitudes.

Outros destaques: “A menina de lá”, “Os irmãos Dagobé”, “Fatalidade” e “A terceira margem do rio”, um dos mais famosos, que inclusive virou filme.

O livro “Primeiras Estórias”, publicado em 1962 pelo médico Guimarães Rosa, é poesia pura, nos sons, nas imagens. É um livro que encanta e emociona com seus personagens – crianças, santos, loucos, bandidos e animais.

Por Dra. Ana Mallet
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