Exercícios físicos podem ser tão eficazes quanto medicamentos?

Atualmente a atividade física tem sido considerada como sinônimo de qualidade de vida e o senso comum atribui empiricamente benefícios em relação à saúde, além de estar associado à beleza, ao culto ao corpo e ao aumento da autoestima, fatores que colaboram para a consolidação do exercício na cultura da população como um estilo básico de vida. A prática tem sido incentivada por médicos, motivados por estudos que correlacionam o exercício físico com reduções no risco de internações hospitalares nos portadores de doenças crônicas. Ensaios clínicos randomizados têm demonstrado resultados favoráveis na artrite, câncer, diabetes, doenças cardíacas e doenças respiratórias, entre outras diversas condições crônicas

Um artigo publicado anteontem (02/10) no British Medical Journal (BMJ) teve como objetivo comparar a mortalidade de intervenção medicamentosa versus exercício físico em revisão sistemática feita a partir de estudos levantados no Medline e no banco de dados de revisões sistemáticas da Cochrane. Foram utilizados 16 meta-análises, abrangendo estudos controlados e randomizados com quase 340 mil pacientes além de 3 ensaios recentes utilizando exercício. Foram avaliados resultados de mortalidade em quatro condições onde existe evidência sobre a eficácia do exercício em mortalidade:  prevenção secundária da doença cardíaca coronária, reabilitação de AVC, o tratamento da insuficiência cardíaca, a prevenção da diabetes.

Surpreendentemente (ou não, para alguns) não houve diferença estatisticamente evidenciável entre o exercício e as intervenções farmacológicas na prevenção secundária de doença cardíaca coronária e pré-diabetes. A intervenção “atividade física” foi mais eficaz do que o tratamento medicamentoso nos pacientes com acidente vascular cerebral. Diuréticos foram mais eficazes do que o exercício na insuficiência cardíaca. O estudo conclui que existem evidências (ainda em número limitado) que o exercício e muitas intervenções de drogas são muitas vezes potencialmente semelhantes em seus benefícios de mortalidade nas condições citadas anteriormente.

Naturalmente deve-se levar em consideração que a quantidade da evidência dos benefícios da atividade física na mortalidade seja notadamente menor que a relacionada com intervenções medicamentosas, além da falta da inclusão da atividade física como uma via de comparação com medicamentos na maioria dos estudos. Uma interpretação superficial poderia sugerir uma conclusão potencialmente perigosa: de que seria razoável prescindir de tratamento medicamentoso a favor de abordagens não-farmacológicas. É digno de nota que foram utilizados no estudo condições onde já existem evidências a favor do exercício e que nem sempre o benefício foi evidenciável, como no caso da insuficiência cardíaca, ao se comparar com o uso de diuréticos. Pode-se supor que o exercício terapêutico, isto é, aquele dosado e monitorado por profissionais, pode ser uma alternativa viável onde existe contraindicações ao tratamento farmacológico, ou como tratamento adjunto. O autor do estudo adverte ainda que a relativa escassez de provas resulta na incerteza sobre quais pacientes se beneficiariam mais com o tipo de exercício, e quais as formas de exercício podem não ser eficazes em diferentes contextos, ou contraindicadas ou com efeitos adversos.

Considerando a falta de incentivo financeiro para comparar a atividade física com outras linhas de tratamento, podería-se exigir que a indústria farmacêutica inclua uma comparação com o exercício; naqueles casos em que as opções de drogas proporcionam apenas modesto benefício, os pacientes merecem a entender o impacto relativo que a atividade física pode ter sobre sua condição e quem sabe, se beneficiar da “pílula de exercício”.

  1. Huseyin,N,  Ioannidis, J P A. BMJ 2013;347:f5577

http://www.bmj.com/content/347/bmj.f5577

Cesar Subieta

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