Coração de Torcedor

No ano da copa das confederações e o que antecede a copa do Mundo no Rio de Janeiro, as atenções tem se voltado progressivamente para assuntos relacionados com futebol. Os brasileiros, culturalmente familiarizados com essa modalidade esportiva, voltam suas atenções para estes eventos esportivos e sintonizam suas emoções com a catarse produzida pela torcida gigantesca. Daí, é justo perguntar: como fica o coração do torcedor?

A excitação mental produzida pela emoção do jogo gera uma série de reações orgânicas cuja intensidade e duração variam de acordo com a expectativa gerada pelo ambiente e os significados vivenciados pelo torcedor. As condições que geram estresse emocional são interpretadas pelo nosso cérebro como situações que exigem reação comportamental. Esse órgão envia,  então, mensagens para o corpo através do sistema nervoso autônomo, que desencadeia reações como dilatação da pupila, palidez cutânea, aceleração e aumento da força das batidas cardíacas, aumento da frequência respiratória, ereção dos pelos, sudorese e aumento do aporte sanguíneo para o sistema muscular.

Paralelamente, uma zona do cérebro conhecida como hipotálamo, que comanda a estimulação da hipófise,  promove a produção de hormônios esteroides pelas glândulas suprarrenais, sendo o cortisol o principal deles. A ação fisiológica desses hormônios é bastante ampla, estimulando o metabolismo das proteínas, gorduras, carboidratos e sistema imunológico. O objetivo geral desse sistema é promover o catabolismo facilitando a utilização da energia armazenada nos estoques hepáticos e nas gorduras para reparação de eventuais danos sofridos pelo organismo.

Estas mudanças que dão sustentação fisiológica à demanda comportamental exigida pela “luta ou fuga” descrita por Walter  Cannon, que elaborou, em 1914, o conceito de “reação de emergência”.

O estresse mental, dessa forma, induz a uma elevações do trabalho cardíaco, que relaciona-se diretamente com o consumo de oxigênio pelo coração. Normalmente, à medida que as demandas de oxigênio pelo coração aumentam, o corpo é capaz de ofertar mais sangue para irrigar esse músculo. Quando um indivíduo tem uma lesão que obstrui parcialmente a coronária, essa capacidade de ajustar a oferta de acordo com a demanda fica prejudicada. O sofrimento celular que vem como consequência é chamado de isquemia e isso pode se manifestar como dor no peito (conhecida como angina) ou arritmias. Uma isquemia prolongada ou intensa pode resultar em morte celular que constitui o conhecido infarto agudo do miocárdio.

Diversos estudos já demonstraram a capacidade do estresse psicológico em induzir isquemia miocárdica (1) (2) (3) (4) (5). Além do moderado aumento nas demandas de oxigênio pelo miocárdio, a vasoconstricção (redução do diâmetro do vaso por contração da musculatura da parede que o compõe) coronariana e o aumento da resistência vascular que também são consequências da ativação autonômica contribuem para esse estado de hipoperfusão que gera a isquemia cardíaca. Os cardiopatas portadores de doença coronariana e os portadores de múltiplos fatores de risco estão em risco de eventos coronarianos relacionados à emoção do futebol. Um  estudo (6) observou o aumento da mortalidade por eventos coronarianos e derrame em homens holandeses no dia da final do Campeonato de Futebol Europeu (França x Holanda) de 1996, fato não foi observado nas mulheres. Outro estudo conduzido por franceses (7) em relação à mesma final não observou o aumento da mortalidade desses eventos na França, o que sugere que o resultado do jogo influencia esse fenômeno. Nem todos os estudos são unânimes. Um deles (8) estudou a mortalidade em 5 jogos importantes entre 1988 e 1994  em que os alemães participaram e não houve aumentos significativos nesses índices. Outro estudo (9) inglês observou um aumento no atendimento de pacientes com infarto agudo do miocárdio em 25% no dia e dois dias após o jogo na Copa de 1998 quando a Inglaterra perdeu para a Argentina e foi eliminada do campeonato. O aumento foi observado tanto em homens como mulheres.

Há poucas evidências na literatura sobre os efeitos benéficos das emoções positivas sobre o coração e o mecanismo desse fenômeno ainda não está claro.  Berthier e Boulay (10) publicaram um estudo que mostrou a redução da mortalidade por infarto em franceses no dia em que a França venceu a Copa do Mundo de 1998. Especula-se, entretanto, que uma postura positiva em relação aos eventos diários ajude a reduzir o estresse e dessa forma, reduzir os efeitos deletérios para o coração. Isso pode explicar parcialmente o porquê do movimento nas emergências ser menor nos feriados e nos finais de semana. As evidências ligando a felicidade com baixo risco cardiovascular são escassas, mas ao afirmarmos que os indivíduos com depressão e ansiedade estão relacionadas com uma alta taxa de mortalidade cardiovascular, a ausência desses fatores podem conferir um efeito protetor para o coração (11).

Outro aspecto relacionado com esses eventos esportivos é o consumo de álcool e alimentos ricos em gorduras e sal pelos torcedores. O álcool age como um instrumento de coesão social e o meio em que o indivíduo se insere contribui para determinados padrões de comportamento (13). Em um seminário de 1993, McGinnis e Foege (12) descreveram os principais fatores modificáveis que contribuiram para a mortalidade nos Estados Unidos. Baseados em uma extensa revisão, esses autores verificaram que aproximadamente metade das mortes ocorridas naquele país em 1990 poderia ser prevenida e foram atribuídas aos seguintes fatores: tabagimo (19%), dieta (14%), álcool (5%), agentes infecciosos (4%), agentes tóxicos (3%), armas de fogo (2%), comportamento sexual (1%), e uso de drogas ilícitas (<1%). O álcool tem um efeito tóxico sobre as células do músculo cardíaco podendo gerar arritmias em pessoas suscetíveis. Há um termo usado na prática clínica chamado “holiday heart syndrome” que corresponde às arritmias cardíacas que aparecem nos feriados ou comemorações e que estão associadas com o uso de álcool.

O excesso de sal e gorduras presentes nos alimentos usualmente consumidos nas comemorações contribui para a descompensação de insuficiência cardíaca e elevação dos níveis tensionais em hipertensos e cardiopatas. Esses pacientes normalmente são orientados por seus médicos a evitarem o sal em excesso. A dieta rica em lipídeos deve ser ingerida com moderação nos portadores de dislipidemias (os que têm níveis aumentados de colesterol e triglicerídeos no sangue) e os diabéticos não devem abandonar sua dieta mesmo em dia de festa. Nem sempre é fácil ajustar as limitações dietéticas aos eventos sociais mas deve se conscientizar de que este é um fator importante.

Muitos indivíduos se orgulham de “controlar” suas emoções. O fato de não exteriorizarem seus sentimentos negativos não significa que esses não existem. Mesmo o controle consciente das manifestações dessas emoções não inibe a ativação fisiológica do sistema nervoso autônomo. A melhor atitude nesses casos é reconhecer essas emoções negativas como naturais e universais. Deve-se aceitar o fato que no esporte a derrota faz parte do jogo e que sua saúde deve estar acima dessas questões.  A felicidade circunstancial de uma vitória não deve estar condicionada aos prazeres inconsequentes. Ao invés de aproveitar o campeonato como a última da vida, é melhor se preparar para aproveitar este e todos os campeonatos que estão para vir. Seu coração agradece.

 

(1)    Krantz DS, Sheps DS, Carney RM, Natelson BH. Effects of mental stress in patients with coronary artery disease: evidence and clinical implications. JAMA 283:1800–1802.

(2)  Kop W.J.,  Krantz D.S.,  Howell R.H.,  Ferguson M.A.,  Papademetriou V.,  Lu D.,  Popma J.J.,  Quigley J.F.,  Vernalis M.,  Gottdiener J.S.,  Effects of mental stress on coronary epicardial vasomotion and flow velocity in coronary artery disease: relationship with hemodynamic stress responses. J Am Coll Cardiol (2001) 37 : pp 1359-1366.

(3)    Rozanski A.,  Bairey C.N.,  Krantz D.S.,  Friedman J.,  Resser K.J.,  Morell M.,  Hilton-Chalfen S.,  Hestrin L.,  Bietendorf J.,  Berman D.S.,  Mental stress and the induction of silent myocardial ischemia in patients with coronary artery disease. N Engl J Med (1988) 318 : pp 1005-1012.

(4)    LaVeau P.J.,  Rozanski A.,  Krantz D.S.,  Cornell C.E.,  Cattanach L.,  Zaret B.L.,  Wackers F.J.,  Transient left ventricular dysfunction during provocative mental stress in patients with coronary artery disease . Am Heart J (1989) 118 : pp 1-8.

(5)    Deanfield J.E.,  Shea M.,  Kensett M.,  Horlock P.,  Wilson R.A.,  de Landsheere C.M.,  Selwyn A.P.,  Silent myocardial ischaemia due to mental stress. Lancet (1984) 2 : pp 1001-1005.

(6)    Witte DR, Bots ML, Hoes AW, et al. Cardiovascular mortality in Dutch men during 1996 European football championship: longitudinal population study. BMJ 2000;321:1552–4.

(7)    Toubiana L, Hanslik T, Letrilliart L. French cardiovascular mortality did not increase during 1996 European football championship. BMJ 2001;322:1306

(8)    Brunekreef B, Hoek G. No association between major football games and cardiovascular mortality. Epidemiology 2002;13:491–2.

(9)    Carroll D, Ebrahim S, Tilling K, et al. Admissions for myocardial infarction and World Cup football: database survey. BMJ 2002;325:1439–42

(10)   Berthier F, Boulay F. Lower myocardial infarction mortality in French men the day France won the 1998 World Cup of football. Heart 2003;89:555–6

(11)  Bacon SL; Watkins LL; Babyak M; Sherwood A; Hayano J; Hinderliter AL; Waugh R; Blumenthal JA Effects of daily stress on autonomic cardiac control in patients with coronary artery disease. The American Journal of Cardiology Volume 93 • Number 10 • May 15, 2004

(12)    McGinnis M.J., Foege W.H.,  Actual causes of death in the United States.   JAMA (1993) 270 : pp 2207-2212.

(13)    Plumb JD; Brawer R The social and behavioral foundations of men’s health–a public health perspective. Prim Care – 01-MAR-2006; 33(1): 17-34, vii

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