SAÚDE URBANA

Equilíbrio deve ser inerente aos conceitos de vida e de saúde. Pode ser instável, mas dentro de limites de sustentabilidade. A ruptura desses limites dá lugar a doença e morte. Aliás, parece ser uma característica constante no universo – não só no mundo biológico – onde presenças antagônicas se equilibram.

 

Como tudo está em movimento, a estratégia para controlar harmonicamente as forças geradoras é o antagonismo. A percepção desse fenômeno omnipresente deve ter dado origem ao Yin e Yang do Taoismo.

 

O equilíbrio é dinâmico e permite um curso mais suave e controlado. Toda ruptura é uma violência. O desequilíbrio pode se manter por algum tempo a custa de estresse, com prejuízo inicial da posição mais fraca. Nesse jogo, como li uma vez num documento do Banco Mundial, o potencial perdedor não pode ser estrangulado até ser eliminado, pois isto terminaria com o jogo. É possível que esta expressão tenha sido originada da fração privilegiada do mundo capitalista que tem consciência da desigualdade e da importância dos estratos submetidos a condições sociais menos favoráveis que sustentam e mantém os andares superiores da pirâmide.

 

Ideias associadas que precisariam ser exploradas neste contexto são: identidade e dependência/autonomia. No universo tudo está interdependente, mesmo que não se consiga identificar os laços de união. Nossas posições dependem de forças que nos sustentam e contra as quais naturalmente reagimos. Na cadeia biológica estamos inseridos e é da interação com seus elos que conseguimos existir, sobreviver e desenvolver. Nossa existência como indivíduos é uma abstração, pois fazemos parte de um todo maior cujos limites (se é que existem) se perdem nas dimensões do universo.

 

Em contraponto com esta verdadeira simbiose a natureza protege a identidade de cada indivíduo com códigos e senhas invioláveis a ponto de que até gêmeos univitelinos (com material gênico que pode ser idêntico), vão se tornando distintos, com as marcas das experiências de vida de cada um.

 

Novamente estamos frente a conceitos antagônicos: a interdependência total (com a mãe, com outras pessoas da família e da comunidade, plantas, animais, insumos os mais diversos, bactérias que nos habitam ou com as quais nos inteiramos, com o meio ambiente, a força da gravidade, a radiação solar, e tantos outros seres e forças cósmicas com as quais estamos em permanente intercâmbio) em contraponto com o total isolamento em nossa identidade pessoal que depende de recursos de comunicação sensoriais ou desenvolvidos pela tecnologia.

 

Ao ter consciência de nossa identidade, de nosso “self”, protegemos obsessivamente nossa privacidade, mas buscamos desesperadamente parceiros de quem possamos obter apoio, aprovação ou fazer trocas. Enquanto esperamos que nos reconheçam e respeitem como indivíduos autônomos, procuramos a qualquer custo um rótulo coletivo que mostre nossa identificação com uma família, uma etnia, uma comunidade, uma nacionalidade, um clube, um clã.

 

É tão sério este dilema que o maior trauma psicológico costuma ser o da rejeição como resposta a uma pretensa aproximação. Aqui se situa a encruzilhada dos laços afetivos, o amor e o ódio, que podem ser surpreendentemente intercambiáveis, na dependência do sucesso ou da frustração.

 

Parece que esta consciência da identidade individual está profundamente marcada em nosso cérebro, assim como nossa identidade biológica a nível molecular, em nosso DNA e estruturas paralelas que o acompanham. As reações são antes afetivas e pouco ou nada racionais, o que implicaria em estuda-las sob esta perspectiva, e não tanto com o instrumental da ciência tradicional.

 

Se do ponto de vista individual isto for verdadeiro, a nível social fica ainda mais complexa sua compreensão, ou mais simples se assumirmos que há muito menos diferença no comportamento coletivo do que na identidade dos seus componentes. Um artigo me chamou atenção recentemente sobre o reconhecimento de expressões faciais índices de reações afetivas: seis emoções podem ser consideradas como básicas se as valorizarmos à luz de uma pesquisa recente: felicidade (ou contentamento), tristeza, medo, desgosto, raiva e surpresa ( six basic emotions—happiness, sadness, fear, disgust, anger, and surprise). Esta interessante pesquisa foi feita com populações de diversas partes do mundo e culturas diferentes, algumas em estagio ainda primitivo e sem escrita, todos os entrevistados conseguiram reconhecer as expressões faciais correspondentes, o que parece evidenciar as profundas raízes dos padrões de reação afetiva.

 

Lembrei-me também de algo que li sobre comportamento, parece que, de um tipo líquen encontradiço nos jardins como mancha esverdeada cujos componentes sobrevivem individualmente quando dispõe de abundante substrato, mas que se reúnem como se fossem colônias em situações de penúria. (fonte freakonomics??).

 

Para entender comportamento necessitamos aprofundar conhecimentos de psicologia e em especial de psicologia social. Lembro sempre ponderações de um amigo epidemiologista falando de nossa ignorância sobre dois domínios essenciais para lidar com população: antropologia e processo decisório. Tudo isso tem a ver com as motivações que nos levam à prioridades e escolhas. Não é de surpreender também que muitas das pesquisas nesta área se fazem com valores monetários. Outro amigo me dizia que economia não é senão uma maneira quantificada de estudar a relação (comportamento) interpessoal e com as circunstâncias.

 

Os protestos e recentes movimentos de massa podem ser considerados como expressão, ou sintoma do estado da saúde urbana. Vozes das ruas, democracia, revindicações por valores legítimos: transporte, saúde, educação, habitação, segurança, salário, controle da corrupção, definição de prioridades na política econômica, etc…Os arranjos da vida urbana são os caminhos encontrados para a agregação, apoio, facilitar comunicação, mobilidade, acessibilidade a serviços e recursos. Se o fenômeno urbano tem origem na busca destes objetivos, segregação, rejeição e frustração desses anseios geram estresse, inveja, raiva e agressividade, com todas as consequências biológicas e sociais conhecidas. A proximidade geográfica e física da cidade facilita a comparação das diferenças sociais, torna impossível ocultar as diferenças entre o privilégio e a marginalização.

 

Pode-se questionar o direcionamento de nossas preocupações como paternalismo assistencial aos socialmente marginalizados. Pergunta: são os marginalizados que sustentam a desigualdade, ou os que detêm o poder (político, econômico ou de qualquer outra natureza)? Do ponto de vista físico é a base que sustenta o ápice da pirâmide, mas do ponto de vista da manutenção política da estruturação social, é o contrário.

 

Nos movimentos pacíficos recentes parece sem dúvida que predominam os jovens, mas não os de grupos marginalizados. Estariam estes entre os mais violentos que se expressaram com agressões e destruição, fruto da frustração e do ódio descontrolados por falta de educação e de recompensa e perspectiva na vida? A repressão à violência também faz pensar na efetividade da estratégia que reage da mesma forma. Pode equivaler à eficácia da experiência negativa, ou da dor, como caminho para a mudança de comportamento. Seria tentativa de usar uma “recompensa negativa”? Será que a punição resolve ou reafirma a posição do punido, e suscita mais ódio? O resultado favorável de nossas experiências é porque o ódio tende a se extinguir espontaneamente, ou acontece por efeito direto da violência punitiva?

 

Numa aula inaugural do curso de epidemiologia há alguns anos parti a apresentação de um modelo que iniciava com a violência responsável pelo desequilíbrio da saúde, levando à doença, destruição e não sustentabilidade. Sempre me impressionou o elastério das catecolaminas entre as variáveis biológicas (até 300 vezes), quando comparadas com outros parâmetros (p. exemplo Glicemia até 10 vezes). Parece que estamos biologicamente predispostos a lutar ou fugir e que estas seriam nossas reações mais primitivas, especialmente em momentos de crise e de reação em cadeia (pânico/populacional).

 

Nosso vezo acadêmico de estudar e interpretar tudo com os instrumentos científicos tradicionais, nos leva à ilusão de que as decisões e ações sejam também racionais. Assim como em política, as decisões são primariamente estratégicas, emocionais e motivadas por interesses diferentes daqueles que são enunciados. Também no mercado e na política eleitoral, propaganda e moda são determinantes.

 

Não é de surpreender a eficiência de nosso equipamento para desenvolver dependência e a presença de tanto abuso de substâncias, e comportamentos baseados no sistema de recompensa. Parece que a razão da existência e da importância deste sistema  estaria relacionada com a facilitação da memória dos caminhos de sucesso e insucesso, evitando a necessidade de uma redescoberta do mapa a cada vez.

 

Poderíamos também tentar aprender com os economistas já que a economia esta tão vinculada com nossa cultura, se não com arquétipos mais primários como o de garantir o sustento alimentar e o território (provavelmente dá no mesmo). Falando com um amigo e colega de hidroginástica ele me chamava atenção para dois aspectos: o consumo e o investimento. O primeiro é o gozo do presente, desprezando o futuro. O outro visa garantir o futuro para uma melhor qualidade de vida (é o mesmo que nossa prevenção). Procurando ver a riqueza de uma nação, os dois (aparentemente antagônicos) precisam estar equilibrados. Nossa política tem incentivado o consumo, em detrimento do investimento. Tem sido uma política visando colher resultados imediatos, de quem acha que não tem futuro ou que não quer se preocupar com ele.

 

Pode haver alguma semelhança com quem não tem perspectiva futura, quem se sente rejeitado e encontra barreiras sociais intransponíveis, sem mesmo haver muros que pudessem ser galgados ou golpeados: deve se sentir extremamente frustrado e rejeitado. Ainda mais quando permanentemente bombardeado pela mídia ostentando com requinte tentações e esbanjamentos de toda a ordem. Se nós privilegiados nos sentimos usurpados pela corrupção e desperdício de dinheiro público, e a cínica degradação da credibilidade institucional, os rejeitados devem ter redobrados os mesmos sentimentos.

http://achutti.blogspot.com

Por Dr. Aloysio Achutti e Dra. Valderês Achutti

 

 

 

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