LITERATURA – A ELEGÂNCIA DO OURIÇO

A ELEGÂNCIA DO OURIÇO

Muriel Barbery

Editora: Companhia das Letras

350 páginas

 

“A elegância do ouriço” é o segundo romance de Muriel Barbery, filósofa francesa que com um título no mínino curioso e reunindo personagens bastante incomuns, vendeu quase um milhão de exemplares na França.

 

O ambiente: um prédio luxuoso em Paris de gente rica e tradicional. A partir desse ponto de partida pouco promissor encontramos duas personagens até certo ponto estranhas a esse círculo e que são as duas narradoras que conduzem o texto: a zeladora Renée e a menina rica Paloma, de doze anos. Essas duas aliadas improváveis se unirão em um trio com a chegada de Kakuro Ozu, um misterioso e sorridente senhor japonês ao prédio, como morador substituto de um dos ricos que morre.

 

Renée, a zeladora ranzinza, se esforça para ser ainda mais ranzinza aos olhos dos patrões, quebrando de certa forma a elegância exterior do prédio. A necessidade de se mostrar de maneira unicamente profissional não acontece no contexto de uma briga de classes, mas essencialmente para proteger um espaço interior que merece ser resguardado, um espaço de inquietação e gosto refinado, de amor à arte e literatura – algo impensável numa zeladora.

 

A menina rica de doze anos,  a outra voz narradora nesse livro, promete se suicidar no aniversário de 13 anos se até lá não encontrar um sentido para a vida. E isso lhe parece impossível no convívio com sua família e colegas.

 

Um diálogo aparentemente sem maior importância, faz com que Renée, de 54 anos, e zeladora do prédio há 27 anos, estremeça. Ela percebe, após a fala do novo proprietário, que pode ser “desmascarada”. O diálogo acontece após a morte de um senhor do prédio:

“Conhecia os Arthens? Disseram-me que era uma família extraordinária”, diz. (Kakuro Ozu)

“Não”, respondo, de pé atrás, “não os conhecia particularmente, era uma família como as outras daqui.”

“ É, uma família feliz”, diz a sra. Rosen, que visivelmente se impacienta.

“Sabe, todas as famílias felizes se parecem”, resmungo para me ver livre da conversa, “não há o que dizer a respeito delas”.

“Mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito”, ele diz me olhando de um modo estranho, e, de repente, embora pela segunda vez, eu estremeço.

“Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito” é a primeira frase do romance Ana Karenina. Algo que não deveria ter sido lido por uma boa zeladora e que faz com que “A elegância do ouriço” tome um novo rumo.

 

Alguns trechos de uma entrevista com a autora do livro contém a mesma  delicadeza do texto que trata dentre vários temas da solidão em sua universalidade:

“…a existência é por demais dolorosa e difícil para que não se tenha a polidez de introduzir, quando se pode, um pouco de derrisão. É uma questão de cortesia, em suma.”

 

“uma questão importante da nossa existência, se não a mais importante: com quem e como se comunicar? Como amar? Por que, quando a vida é assim curta, somos muitas vezes incapazes de cultivar aquilo que poderia torná-la feliz: o gosto do outro, o encontro que desperta, o prazer compartilhado”.

 

“… a literatura  foi para mim  a mais privilegiada via de acesso ao mundo. A trama tênue que conduz a narração romanesca, que é bem o contrário da concentração racional exigida pela filosofia, permite uma fluidez emocional excepcional, que permite intuir sutilmente o que não podemos aprisionar nos conceitos”.

 

“A elegância do ouriço” é, sem dúvida, uma via privilegiada de acesso ao mundo.

 

Por Dra. Ana Luisa Rocha Mallet, Médica Cardiologista

 

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